sábado, 21 de maio de 2011

E agora?

O que tá acontecendo? O que explica essa sensação de impotência, que aparece em alguns momentos e simplesmente não dá pra fugir, não adianta fazer de conta que é passageiro, que é circunstancial.

Como no convívio social, em que as vezes parece tão necessária a constatação de que faço alguma diferença que um chá de sumiço parece uma boa alternativa para perguntarem por vc. Já disse aqui uma vez, não falte para não perceberem que você não faz falta, e também já descobri que não é bem assim, mas porque isso aparece repetidamente? Tem momentos que está tudo bem e isso desaparece, mas é sempre uma sombra.

Por que parece uma coisa tão distante simplesmente almejar uma pessoa, pessoa essa que nem pareceu tão distante das expectativas, na narrativa que você repetiu pros seus amigos em busca de uma opinião, já que vc pra variar não sabe o q fazer, e a maioria te disse que a coisa é bem possível. Mas você continua enxergando tão distante.

Outro dia, em momento com amigos, em uma situação uma amiga comentou sobre outro: "É, parece que ele aprendeu a abrir a porta, aprendeu a ser homem."

E porque eu não consigo?

domingo, 17 de abril de 2011

Ainda sobre a Questão do Controle

"O fato de o reforço positivo não produzir contracontrole não passou despercebido dos supostos controladores, os quais simplesmente mudaram para os meios positivos. Eis um exemplo: um governo tem de levantar fundos. Se o fizer por meio de taxação, seus cidadãos deverão pagar ou ser punidos, e eles poderão escapar deste controle adversativo colocando outro partido no poder nas eleições vindouras. Como uma alternativa, o governo organiza uma loteria e, em ver de ser obrigado a pagar taxas, o cidadão voluntariamente compra bilhetes. O resultado é o mesmo: os cidadãos dão dinheiro ao governo, mas sentem-se livres e, neste segundo caso, não protestam. Não obstante, estão sendo controlados, tão poderosamente quanto o seriam por uma ameaça de punição, por aquele esquema de reforço particularmente poderoso (de razão varíavel), cujo efeito é claramente demonstrado no comportamento do jogador compulsivo ou patológico." (Skinner; Sobre o Behaviorismo; pp. 170; Cultrix, 2006)


E aí entra mais lenha na fogueira na questão da liberdade. O que Skinner quer dizer é que sendo aversivamente controlado somos propensos a contracontrolar e temos assim a impressão de sermos livres e escolher algo, especialmente escolher algo diferente daquilo que nos é imposto, ou seja, mudar as contingências em vigor e causando uma impressão de auto determinação. Contudo, a meu ver, essa citação bem como todo o capítulo 12 deste livro clarificam essa ilusão, chamando atenção justamente para a diversificação das características do controle, que sempre existirá, variando em termos de modelo, esquemas de reforçamento, aversivo ou reforçador, dependendo daquilo que seja mais reforçador para o controlador enquanto manejador de contingências sociais, podemos falar do governo, da escola, da família, podemos falar disso como sendo essencialmente o que chamam de luta de classes.

Esse é um dos problemas com a Análise do Comportamento, ninguém gosta de ouvir que é determinado em maior ou menor escala pelo ambiente (determinismo probabilístico), pelos três níveis de seleção (biológico, individual e cultural), mas essencialmente pelos níveis biológico e cultural. A noção de liberdade limita-se a um conceito que exprime o maior conhecimento possível das contingências controladores e remanejo das mesmas de modo que aquilo que lhe é mais reforçador (determinado também por sua história pregressa) seja mais facilmente alcançado. Esse é, aliás, um dos maiores, senão o objetivo final de uma terapia, seja qual for a corrente teórica: autoconhecimento e autocontrole.

sábado, 19 de março de 2011

Embora esse discurso seja meio batido já, marxista, histórico-cultural e etc, eu nunca havia pensado NESSA hipótese em si, achei divertida essa citação:

Leontiev (1978) enfatiza ainda que o processo educativo “deve sempre ocorrer”, pois, do contrário, a transmissão da herança cultural produzida e acumulada pelas gerações precedentes se tornaria impossível, o que inviabilizaria a continuidade do processo histórico e, consequentemente, a evolução da humanidade. Para exemplificar isso, o autor faz a seguinte suposição: se o planeta em que vivemos fosse vítima de uma catástrofe, em que somente as crianças pequenas sobrevivessem, embora não se tivesse como resultado o fim do gênero humano, a história seria inevitavelmente interrompida. Assim, Os tesouros da cultura continuariam a existir fisicamente, mas não existiria ninguém capaz de revelar às novas gerações o seu uso. As máquinas deixariam de funcionar, os livros ficariam sem leitores, as obras de arte perderiam sua função estética. A história da humanidade teria de recomeçar (LEONTIEV, 1978, p. 272).


Nem precisa fazer muita força pra entender que o grande problema é a educação, mas não a educação em si, e sim como se daria essa educação, a mediação entre o conhecimento historicamente acumulado e a apropriação do mesmo pelos sujeitos. O que seria do mundo com milhares de livros, filmes, músicas e etc. mas com uma população que não tem como aprender a ler sozinha?




quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Férias

Era uma manhã gostosa e quente de domingo na Lapa quando dirigia-me ao local que permitiria ir de volta para minha casa, o ponto de ônibus. Naquele trajeto entre Coriolano e Barão de Jundiaí/N. Sra. Lapa, em meio ao sono de uma noite praticamente não dormida e ainda frescas nas memórias as bobagens ditas e feitas entre amigos, percebi que o mundo ainda tem momentos que valem o registro.

Estava eu já quase chegando ao ponto para tomar minha condução quando percebi um simpático casal de idosos, como dizer ao certo? Nem tão idosos assim, tá, um casal de velhinhos muito maloquêro, típicos sr. e sra. Oliveira/Lopes/Silva/Rodrigues/Gomes, enfim, tão comuns em nossa cidade que já nem notamos mais na pressa de chegar logo, de não perder o horário. O que faria um jovem transeunte em pleno passeio às 10h da manhã (e espera-se que qualquer hora do dia)? Simples, me recolho e abro passagem aos dois, mas eis que o inesperado se faz presente, de forma tão divertida quanto imprudente, excepcionalmente na nossa perigosa São Paulo em que quando alguém fala com um desconhecido na rua todo mundo já fica meio desconfiado, não foi assim que você foi criado? "Não fale com estranhos!", "Não aceite nada de ninguém que não conhece!". Ao me recolher para que passem, a senhora passa normalmente e o senhor fica parado à minha frente.

Eu não entendi, em um milésimo de segundo tive tempo para me assustar e para me confundir com a situação, até me mover para o lado e então o homem se postou novamente à minha frente, como quem impede minha passagem. Em outro milésimo de segundo ele deve ter percebido meu embaraço, deu uma risada divertida, um tapinha nas minhas costas daqueles de avô fanfarrão enquanto sua senhora ria da situação, virou-se e foi embora.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Here's the thing

E não vou falar de psicologia, muito menos de qualquer coisa que algum leitor desavisado tenha alguma dificuldade de entender, especialmente por vocabulários ou temas restritos.

Vou é falar da minha vida e como ela anda. E o legal é que ela anda muito bem, resolvi fazer algumas coisas diferentes dela nessa altura do campeonato, com o fim das férias chegando e eu cansado de reclamar do clichê tédio de férias.

Pois então, a mais importante dessas coisas foi resolver que é hora de abrir o leque de opções por aqui, não sei até quando vão durar as amizades que se conquistaram no interior e a única certeza que tenho quanto a esse assunto é que será difícil mantê-las com grande proximidade, por questões geográficas óbvias. Tampouco sei onde vou estar após o fim do curso e isso é fonte de angústias também. Alia-se a essas questões o fato de que é preciso encarar a perspectiva de poucos amigos aqui em SP, sobraram aqueles poucos do colégio, e sempre foram poucos, agora são ainda menos, um descambou pra cá, outra descambou pra lá, a bem da verdade é que de cinco restaram três com quem realmente dá pra contar.

A solução pra isso veio de maneira até que meio inesperada, pois eu precisava era apenas resgatar outras fontes de amizade, especialmente daquele que nunca me falhou em trazer oportunidades de vida, o bom e velho MJ. Tem uma boa galera que eu conheço há anos, outros que estou começando a conhecer, outros que estou revendo e me reaproximando, os quais descobri que posso também contar como uma opção de vida, como uma escolha válida, como gente em quem confiar e contar. E eu quero é reforçar isso, é saber que existem mais coisas por aí do que eu sempre acostumei a ver, mais amigos do que eu sempre me acostumei a ter, e as coisas vão melhorando, se abrindo, ao ponto de vc sair uma noite, com alguns amigos, voltar de manhã, quase não dormir e receber em casa outros amigos na mesma tarde, porque simplesmente vc não quer abrir mão de nenhuma dessas oportunidades pelas quais vc tanto reclamou quando se queixava de tédio.

Além de abrir o leque de amigos e mantê-los, lutar por isso, vale a pena também se mexer um pouco, não ficar preso ao comodismo que o sofá e a internet lhe proporcionam. Pegue um ônibus, dois, três, use o trem, o metrô, os pés principalmente. Sabe o que é gostoso? Experimente andar pelas ruas de um bairro que vc passou a vida inteira de carro mas nunca andou a pé, pegou ônibus, teve que perguntar como chega na rua x ou onde sai o ônibus pro lugar x. Você comeu sua vida toda naquela pastelaria que vc sabe que tem o melhor pastel de carne do mundo, mas vc já foi pra lá a pé? "Ah, vc tem que dirigir, tem que pegar prática, e mimimi" ah to nem aí pro carro, se precisar dele eu uso, se eu tiver vontade eu o pego, ainda bem que o tenho se preciso, mas ao mesmo tempo que ele facilita por um lado, restringe o descobrimento por outro, ao descobrir um caldo de cana fmz na esquina da rua tal ou uma loja de porcarias baratas daquela que toda criança adora bem em frente ao ponto do ônibus que te deixa na porta de casa?


E as férias tão entrando na reta final, embora ainda faltem 20 dias, e eu acho que muita coisa vai rolar, as vezes vai batendo aquela vontade de que acabe logo, pra recomeçar o curso, e ao mesmo tempo bate aquela pena por estar acabando esse tempo que acabou se tornando tão gostoso, tão diferente, foram férias diferentes, me trouxeram crescimento, coisas boas.

Resta saber aproveitar esses 20 dias, espero conseguir.

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Meritocracia

"à medida que entendemos o comportamento humano e seu papel na evolução das culturas, e particularmente as contingências que induzem os homens a planejarem culturas, devemos dispensar a prática de atribuir mérito pessoal." (Skinner; Contingências do Reforço; pp.210; 1969)

Eu acho que a citação é clara e não necessita maiores destrinchamentos.

O que eu gostaria de comentar é que, já que somos parte integrante da interação indivíduo-ambiente e, ao mesmo tempo que o modificamos somos modificados, dentro de uma cultura em que as contingências garantissem (ou ao menos pretendessem garantir) um ambiente de prosperidade, solidariedade, amor, etc, valores positivos relativamente universais seriam a base formadora dos cidadãos e a possibilidade de termos "desvios de conduta" que causassem transtornos para essa cultura e para o indivíduo em si ficaria muito reduzida. E estou sendo apenas cauteloso em usar o termo reduzida, pois Skinner diz que no advento dessa cultura "seus cidadãos são automaticamente bons, sábios e produtivos". Já acho que devemos ir devagar com o andor, especialmente para uma mediação teórica que tem sua base fundamentalmente em dados extraídos do laboratório e tão contrária a ficções explicativas.

Mas e aí como ficamos sem o mérito? Afinal, toda nossa sociedade hoje em dia é fundamentada com base no mérito do indivíduo, com base em suas conquistas pessoais e a capacidade, força de vontade, força de luta e superação para atingir seus objetivos. Afora a capacidade de resiliência que é importante em qualquer tipo de cultura, seja ela existente ou não (embora na sugerida por Skinner e afins tornaria-se menos necessária, até pela diminuição de eventos aversivos que permitissem que se desenvolvesse), os valores passados geração por geração são esses que valorizem o homem que luta por seus objetivos, enfrentando dificuldades e as vencendo por seus próprios méritos.

Voltando ao bom velhinho: "Admiramos as pessoas, e damos-lhes crédito pelo que fazem, para induzí-las a se comportarem de forma admirável. Tendemos particularmente a fazer isso quando não há outro tipo de controle disponível, (...) Quando práticas alternativas são inventadas, ou quando o mundo muda, de forma que o comportamento em questão não é mais necessário, a prática da admiração é abandonada." (Contingências do Reforço; pp.209; 1969)

Temos aí uma explicação do motivo pelo qual admiramos as pessoas e a que isso nos leva, e seguindo o raciocínio de Skinner, poderíamos dizer que isso sumiria em uma cultura planejada. Logo, levemos mais adiante e poderíamos esbarrar na questão de controle entre classes (luta de classes e etc), que historicamente vem impedindo qualquer tipo de mudança mais séria que ameace o status quo, ou mais claramente, garantindo seus reforçadores custeados pela exploração da força de trabalho dos homens com menos acesso aos bens próprios e da cultura.

Empecilho real para o desenvolvimento do planejamento cultural tão alardeado pelo Skinner enquanto função social também para uma ciência do comportamento?

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Capítulo 28

O principal problema - um dos principais problemas, pois são muitos -, um dos principais problemas em governar pessoas, está em quem você escolhe para fazê-lo. Ou melhor, em quem consegue fazer com que as pessoas deixem que ele faça isso com elas.

Resumindo: é um fato bem conhecido que todos os que querem governar as outras pessoas são, por isso mesmo, os menos indicados para isso. Resumindo o resumo: qualquer pessoa capaz de se tornar presidente não deveria, em hipótese alguma ter permissão para exercer o cargo. Resumindo o resumo do resumo: as pessoas são um problema.

Então esta é a situação que encontramos: umma sucessão de presidentes* que curtem tanto as diversões e bajulações decorrentes do poder que muito raramente percebem que não estão no poder.

E, nas sombras atrás deles - quem?
Quem pode governar se ninguém que queira fazê-lo tem permissão para exercer o cargo?

*o original fala em "presidentes galácticos"
(Galáxias, Guia do Mochileiro - O restaurante no fim do universo; Adams, D.; 1980)